Filhos homenageiam mãe que faleceu de Covid-19 – Linda reportagem
maio 9, 20215:21 pmEm lembrança a Inar Mosciaro Xavier, de 69 anos, que faleceu em decorrência da covid-19, filhos e funcionários a homenagearam neste domingo, 09 de maio, Dia das Mães, fazendo aquilo que ela se dedicou durante mais de 35 anos: a venda dos famosos “pastéis da tia Inar”.
Um dia depois do sepultamento da mãe, que ocorreu no sábado, quatro dos cinco filhos (a mais velha mora no interior de São Paulo), resolveram abrir o local para a venda dos pastéis, negócio esse, que fez parte da vida de cada um deles e que ajudou no sustento ao longo de mais de três décadas.
“Além de uma homenagem à ela, é a continuação daquilo que sempre pediu, quem nós seguíssemos com os pastéis. Infelizmente, a partir deste domingo, ela não estará mais presente fisicamente, mas sabemos que estará sempre com a gente e nos vigiando, para que possamos seguir trabalhando com muita dedicação, assim, como ela sempre fez”, disse o filho caçula Thiago Augusto Gomes Xavier.
O início
Quem conviveu com Inar sabia que depois dos filhos, netos, costura e devoção à Nossa Senhora de Fátima, a maior paixão que ela tinha era fazer os pastéis. Como diz o ditado popular: “pode estar chovendo canivete”, mesmo assim, o domingo, além da missa, a venda dos pastéis era sagrado para ela.
Nada a impedia de estar em frente à sua casa, na rua Gonçalves Dias, próximo a Ponte da Sete, local que transformou como seu ponto de vendas nos últimos anos, já que antes, ela ia todos os domingos em um ponto que ficava na rua Sete de Setembro, no bairro Popular Velha. Foi através do pastel, que ela viu a oportunidade não só de melhorar financeiramente, mas também de ensinar valores aos filhos, pois com muito trabalho e dedicação, tirou do pastel, boa parte dos investimentos na educação de cada um deles.
R era o amor. Ela costumava dizer que mesmo se ganhasse na Mega-Sena, não deixaria de vender os pastéis, era um Nunca deixou de abrir, poderia estar caindo o mundo, mas o pastel dela tinha que estar disponível para os clientes. Poucas vezes ela não esteve presente, diria raramente, aos domingos, mas deixava tudo organizado e a gente e os colaboradores, que hoje temos, tocávamos a venda. Isso aqui era a vida dela, mesmo sabendo que não precisava mais”, destaca Nilson que ao se referir aos fregueses. “Ela sempre os acolhia de uma forma carinhosa. A maior insatisfação dela era ver que um cliente deixava o pastel no prato, ou seja, para ela, não estava bom, ou estava mal frito, enfim, algum defeito tinha que ter”, completa.
“Mãezona”
Para muitos, Inar sempre foi considerada uma “mãezona”, poderia ser para os amigos dos filhos ou até mesmo, sobrinhos e clientes. Quando via que era necessário, lá estava ela, sempre disposta a ajudar com conselhos.
Conselhos estes que foram ouvidos sempre por Michely Mosciaro Sobrinho, que além de sobrinha era colaboradora no negócio da tia. Foram pouco mais de 15 anos de convivência entre idas e vindas.
“Eu tinha a minha tia como uma mãe. Sempre me dando conselhos, além de oportunizar esse aprendizado no empreendedorismo, me ajudando na renda. A admirava, pois com seus inúmeros conselhos seguia em frente. E olha que não era só para mim, mas para qualquer um que necessitasse. Lá estava ela, sempre disposta. Muitos jovens passaram por aqui, alguns vieram pedir para ajudar, e, ela, nunca se negou. Sempre teve esse coração de uma verdadeira ‘mãezona’”, relembra Michely frisando que até mesmo nos estudos a tia era implacável nos incentivos. “Ela sempre me dava uns ‘puxões de orelhas’ e dizia para eu estudar. Se hoje não tenho ensino superior não foi por falta de incentivo dela, porém, a cada dia vamos vencendo”.
Outro filho, Rennê Gomes Xavier, que atualmente vive em Campo Grande e vinha sempre que podia, destaca esse lado humanizado da mãe. Ele diz que ela jamais se recusou a ajudar o próximo e sempre que podia, estava participando de eventos voluntários, como quermesses, atividades na Igreja.
“Sempre que tinha um evento, ela estava lá disposta a ajudar, sempre como a mão na massa, fazendo aquilo que ela mais gostava. Os catadores de resíduos sólidos, já sabiam que ela sempre separava sacolas de pastéis e dava para eles comerem, enfim, minha mãe sempre teve o coração grande”, fala Rennê.
Ele também faz questão de dizer que com a idade da mãe, que completaria 70 anos no dia 13 de maio, dia também de Nossa Senhora de Fátima, pedia para ela parar com as vendas ou “passar o bastão”.
“A gente conversava com ela, pois mesmo não mais precisando, ela fazia por amor, entendíamos também, mas havia essa preocupação por ela ser idosa já, isso pelo fato de sempre tomar a frente de tudo, mesmo com o apoio dos colaboradores. Ela fazia questão de ir atrás de tudo, desde as compras até na hora de entregar o pastel frito na mão do cliente. Tinha vezes que eram usados 50 kg de trigo no domingo, fora os outros insumos, como a carne e ela sempre estava lá. Mas eu entendo que atrás de tudo isso era o amor que ela tinha de estar ali, entendia essa peregrinação que ela começava toda quinta-feira até o domingo”, frisa Rennê.
Apesar da partida de Inar, os filhos garantem que darão continuidade às vendas do tradicional pastel, que virou símbolo da família em Corumbá. “Sim, vamos continuar até porque esse foi o desejo dela. Temos que manter esse negócio vivo. Ela construiu tudo isso do zero e temos o dever de dar continuidade. Ela pediu e deixou isso explícito”, finaliza o filho Thiago Xavier.
Reportagem de Leonardo Cabral do site Diarionline