Mais de R$ 105 milhões são projetados para reverter parte do desastre ambiental no Rio Taquari
setembro 13, 20218:44 amA recuperação do Alto Taquari, em uma área envolvendo Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, está avaliada em R$ 105,8 milhões e agora depende da efetiva liberação de recursos. O projeto está sob análise e foi selecionado em março deste ano no âmbito do Pró-Águas Taquari, no Programa Águas Brasileiras, do Ministério do Desenvolvimento Regional. O recurso para financiar a proposta é ainda um impasse, porque ele foi apresentado para captar dinheiro do Caixa Florestas, mas o banco estatal não efetuou a liberação.
Por parte do governo do Estado também não há ainda interlocução para buscar na iniciativa privada o financiamento da proposta, que tem previsão para ser concluída em 5 anos após ser iniciada. Essa intervenção tem impacto direto no bioma que envolve Corumbá porque o Rio Taquari é um dos principais formadores do Pantanal brasileiro.
A recuperação dessa região tem abrangência nos municípios de Alto Araguaia e Alto Taquari, em Mato Grosso, e Alcinópolis, Camapuã, Costa Rica, Coxim, Figueirão, Pedro Gomes, Rio Verde de Mato Grosso e São Gabriel do Oeste. Refere-se a uma população de 162.103 habitantes, sendo que a maioria está em MS (131.585).
O Rio Taquari vem sofrendo diversos impactos de degradação ambiental por décadas. Mesmo sua importância para todo um bioma não reduziu esses danos. A bacia hidrográfica do Taquari tem uma área de 78 mil km² e nasce em Alto Taquari (MT) para depois descer até Mato Grosso do Sul e seguir no sentido leste-oeste, em uma extensão de 800 km. Desse total, 500 km estão na planície pantaneira, área que mais tem sofrido com a intervenção humana.
A Embrapa Pantanal faz acompanhamento das condições do Rio Taquari. Estudos apontam que naturalmente a bacia sofre com a sedimentação, porém esse processo foi acelerado ao longo dos anos. Dados apresentados pela entidade e que constam também no projeto de recuperação mostram que a sedimentação diária é de cerca de 36 mil toneladas.
“Isso acontece devido ao forte potencial erosivo dos solos, ao regime de chuvas da região, às elevações de nível da água do Rio Paraguai em boa parte do ano e à enorme diferença de nível entre a nascente e a foz, fazendo com que o rio passe, nas suas cabeceiras, de uma altitude de 800 m para 200 m em apenas 300 km de extensão. Entretanto, é inegável que as atividades antrópicas na Bacia Hidrográfica do Alto Rio Taquari tiveram grande contribuição para a aceleração do processo de assoreamento do Rio Taquari, o que somente reforça a necessidade de revitalização da bacia”, detalha o estudo de recuperação elaborado pelo projeto Pró-águas Taquari, do Instituto Espinhaço, de Brasília (DF).
Com relação às atividades humanas que interferiram diretamente para a degradação do Rio Taquari, a Embrapa Pantanal conclui que a atividade agropecuária incentivada em meados de 1970 na região não ocorreu de forma coordenada e alinhada com conceitos de proteção ambiental. “A rápida e desordenada expansão da atividade agropecuária, iniciada em meados da década de 70, no planalto da Bacia do Rio Taquari, intensificou a entrada de sedimentos na Planície Pantaneira, dando origem ao mais grave problema ambiental e socioeconômico do Pantanal: o assoreamento do Rio Taquari no seu baixo curso. Esse assoreamento fez com que milhares de quilômetros quadrados de terras localizadas no Pantanal passassem a ficar inundadas permanentemente, acarretando sérios impactos ao meio-ambiente e a sócio-economia dessa região”, indica a autarquia federal.
No final de 1970, lavouras e pastagens ocupavam cerca de 3% da Bacia do Alto Taquari. No começo dos anos 2000, a agropecuária ocupava pouco mais de 60% dessa mesma área. Um aumento de quase 2000%, sendo que a pastagem é a principal ocupação, com cerca de 55%. Esses números foram identificados na Acta Limnológica Brasiliensia, de D.F. Calheiros e M.D. Oliveira; e na Análise multivariada em zoneamento para planejamento ambiental, de J. Dos S. V. Da Silva.
Esse projeto sob análise de recuperação prevê atuar fora da planície pantaneira, porém buscando a conservação do solo e da água, além da recomposição de vegetação nativa ao longo de 2 mil hectares, tanto em Mato Grosso como em Mato Grosso do Sul. A proposta é que com esse investimento, a disponibilidade de água seja aumentada no Rio Taquari. Essas ações vão envolver interação com 5.989 propriedades rurais que estão cadastradas no CAR, justamente na área de abrangência do projeto. A participação do produtor rural nessa recuperação vai ser necessária.
“A proposta de educação ambiental para as comunidades será adequada às características dos diferentes públicos. Serão realizadas oficinas com os produtores rurais, seminários para lideranças públicas e estudantes do ensino superior, momentos de educação ambiental nas escolas de ensino primário, fundamental e médio, além de cursos de capacitação de professores para ações de educação ambiental”, indica o Instituto Pinhaço.
E apesar das ações estarem focadas para serem realizadas no Alto Taquari, o projeto aponta que outras partes da bacia serão beneficiadas. O Médio e Baixo Taquari, localizados na planície pantaneira, representam 64% da área total da bacia hidrográfica, porém o Alto Taquari produz 16% do volme de água do Pantanal.
“As ações propostas pelo projeto Pró-Águas Taquari deverão levar para toda a Bacia Hidrográfica do Rio Taquari a melhoria na quantidade e na qualidade da água para o abastecimento público, para a navegação e também para as atividades socioeconômicas como a agricultura, a pecuária e a pesca, que são desenvolvidas ao longo de suas extensões. Espera-se, assim, que a região sofra os impactos positivos das ações do projeto Pró-Águas Taquari, revertendo o atual quadro de instabilidade produtiva que vem sendo observado nas últimas décadas na Bacia Hidrográfica do Rio Taquari”, garante o estudo.
O pesquisador da Embrapa Pantanal Carlos Padovani salienta que os problemas em diferentes áreas do Rio Taquari seguem sendo monitorados. Danos que foram causados por ações humanas conseguiram alterar toda a dinâmica de trechos do curso d’água que atualmente enfrentam uma estiagem severa. Quando esse período for concluído, que há previsão para ocorrer depois de 2024, e houver cheia, novas áreas com sedimentações poderão ocorrer.
Uma das regiões onde houve um grande efeito sobre o volume de água do rio é no Caronal. Esse desastre ambiental que ocorreu aos poucos e ao longo de quatro décadas, atingiu parte da sub-bacia do Paiaguás, do Pantanal. Após o período de seca, existe a previsão que novos impactos vão surgir. “A avulsão no Caronal se completou, isolando o trecho rio abaixo que havia secado na sua maior extensão. Áreas antes sob risco de avulsões e inundações pelo Taquari ficaram livres desse risco. O trecho que passou a ser o canal do rio, no Paiaguás, antes em grande parte permanentemente inundável, vai passar pela instabilidade de avulsões quando a estiagem terminar”, detalha o biólogo Carlos Padovani, que acompanha a situação do Taquari e do Pantanal há mais de uma década.
Não houve especificação sobre os efeitos que a atuação em 2 mil hectares do projeto Pró-Águas Taquari vai causar em locais que o rio teve seu curso alterado e mudou a dinâmica de áreas alagadas e não alagadas no Pantanal, principalmente no Caronal. Essa repercussão ainda será observada no futuro. No Alto Taquari, há 1.414 hectares de áreas de preservação permanente (APP) para serem recuperadas, conforme declaração de proprietários rurais a partir de dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR).
Conforme a Caixa Econômica Federal, o Fundo Socioambiental Caixa para preservação e conservação ambiental vai ter pelo menos R$ 150 milhões para ações de preservação. Na atual etapa do programa, 3,5 milhões de hectares serão atingidos com 10 milhões de árvores a serem plantadas não só no bioma que envolve o Taquari, mas em outros do Brasil.
Um outro projeto, de menor alcance, já teve valor aprovado (R$ 3,2 milhões) para ser financiado pelo Caixa Florestas. Essa proposta tem atuação em área menor que 60 hectares na região do Parque Estadual das Nascentes do Rio Taquari.
Em junho deste ano, o secretário Jaime Verruck, da Semagro (Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar), o diretor-presidente do Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul), André Borges, levaram o vice-presidente de Negócios e Varejo da Caixa Econômica Federal, Celso Leonardo e equipe do programa Caixa Florestas para visitar o Parque Estadual das Nascentes do Rio Taquari para validar o projeto Pró-Águas para recuperar essa área menor do Taquari.
Fonte: Correio De Corumbá