Marília Mendonça: a cantora que embalou o Brasil

novembro 6, 20215:51 pm

Das rodas de viola, lá nos idos de 1929, até se tornar a mania nacional que é hoje, muitas mulheres já subiram nos palcos soltando a voz no sertanejo. Inezita Barroso, Irmãs Galvão, Roberta e Sula Miranda estão entre elas, e fizeram história nas rádios do Brasil, conseguindo destaque em um ambiente dominado quase que exclusivamente por homens.

Mas foi o nascimento do “feminejo”, já nesta década, que destacou verdadeiramente o nome das mulheres dentro do universo da música caipira. Natural de Cristianópolis, em Goiás, Marília Mendonça pode ser considerada a precursora desse movimento e a prova de que elas e o sertanejo também têm vez.

É uma carreira de tanto sucesso que a “Rainha da Sofrência” é a detentora de um recorde que até 2020 era inimaginável: o de maior plateia durante uma transmissão ao vivo no canal de YouTube em todo o mundo.

Foram 3,31 milhões de espectadores assistindo Marília cantando seus amores e desamores na plataforma – número que supera as lives de nomes conhecidos globalmente, como o grupo coreano BTS ou o tenor italiano Andrea Bocelli.

A “Patroa”, como seus fãs também a chamavam, tinha apenas 26 anos e uma carreira relativamente curta, mas meteórica. O primeiro EP foi lançado em 2015 e já no ano seguinte, ela recebia o certificado de disco de platina tripla pelas 240 mil cópias vendidas do DVD homônimo.

O single “Infiel” grudou na cabeça dos apaixonados por sertanejo (e até de quem não era adepto do ritmo) e se tornou uma das canções mais tocadas no Brasil, dando à cantora uma imensa visibilidade nacional.

A intérprete trouxe para o cenário musical uma visão diferente do que os homens da sua geração estavam acostumados a cantar com o sertanejo universitário: assuntos que giravam em torno de cachaça, mulheres e traições, colocando a mulher sempre em segundo plano ou, muitas vezes, como a grande vilã de uma infidelidade. Marília fez exatamente o contrário e mostrou que elas também têm seus desejos e espaço para serem protagonistas.

O empoderamento, aliás, que nasceu ali não era visto pela “Rainha da Sofrência” como uma forma de bradar o feminismo. Marília, em mais de uma ocasião, afirmou que nunca se intitulou feminista e se as suas letras se encaixavam nesse empoderamento, era uma coincidência, nada proposital.

No começo da carreira, chegou a dizer que o machismo não estava apenas no sertanejo, mas enraizado no país inteiro e em diversas situações. Ela nunca teve receio de emitir suas opiniões e queria mesmo era cantar a sua própria história, pois não conseguia se sentir representada nas letras das canções que ouvia.

Outro conceito que Marília difundiu entre os fãs foi a união entre as mulheres, a sororidade – termo que a própria se recusava a tomar posse. Para ela, todas têm o dever de se unirem para conquistarem seus objetivos.

No palco, Marília quebrou padrões também no visual e maneira de se apresentar. Das mulheres vestidas de bota, chapéu, estampa xadrez e cinto com fivela enorme, ela deu lugar para a cantora caipira que veste roupas da moda, com cores, saias curtas, brilho, vestidos, tênis e o que mais ela se sentisse confortável em usar.

Sua bandeira sempre foi de que “a mulher pode ser o que ela quiser”, o que explica também o motivo de voltar a atenção ao físico depois de assumir com orgulho seu peso e seu corpo. Ela emagreceu, colocou lente de contato nos dentes, fez cirurgia plástica e não tinha receio em brincar: “Acho que vão tirar minha carteira de feminista”.

Com apenas cinco anos de estrada, Marília Mendonça foi indicada a 35 prêmios. Venceu 11, entre eles, um dos mais importantes da música e de sua carreira, o Grammy Latino, em 2019.

O álbum “Todos os Cantos” foi escolhido o Melhor de Música Sertaneja daquele ano, e nele estão “Todo Mundo Vai Sofrer” ou “Bem Pior Que Eu”, melodias de letras fáceis e números astronômicos – juntas somam quase 1 bilhão de visualizações no YouTube, plataforma em que Marília somava 22 milhões de seguidores.

A Patroa também era dona do segundo maior cachê entre todos os artistas sertanejos, só ficando atrás de Gusttavo Lima. Recentemente, ela havia dobrado o preço pelos seus shows, que passou de R$ 250 mil para mais de R$ 500 mil por apresentação.

O sucesso meteórico da goiana ajudou a alavancar a carreira de outras cantoras do feminejo como Simone e Simaria, Paula Mattos, Naiara Azevedo.

Também expôs ao grande público a figura feminina que estava por trás das letras de músicas cantadas por outros homens como Jorge & Mateus (“Maneira Errada” e “Calma”), Cristiano Araújo (“É com ela que eu estou”), Cleber e Cauan (“Preferência” e “Era Isso Que Você Queria”), Marcos e Fernando (“Ninguém estraga”), César Menotti & Fabiano (“Brindando o Fracasso”) e João Neto e Frederico (“Minha herança”).

Sua presença na música brasileira é incontestavelmente um marco para as mulheres, ajudando a amplificar suas vozes, desejos e anseios em letras de músicas que falam de amor, paixão, festa, traição e até mesmo denunciar relacionamentos abusivos. Com o single “Você Não Manda em Mim”, em parceria com Maiara e Maraísa, ela quis ajudar a ampliar a discussão sobre o tema – não por acaso a canção foi lançada no mesmo período que eclodiu o caso de agressão do DJ Ivis à sua mulher, Pamella Holanda.

O acidente fatal

Contudo, a trajetória de sucesso terminou depois que um acidente fatal tirou a sua vida e a de outros três passageiros, além da tripulação, que estavam no avião bimotor Beech Aircraft, que caiu em uma cachoeira na serra de Caratinga, interior de Minas Gerais, na tarde de sexta-feira (5).

Antes de embarcar na aeronave, Marília fez uma brincadeira com os fãs e ligou para quatro deles para divulgar o single “Fã Clube”, um feat com Maiara e Maraísa, e destacado por ela como a primeira música sem sofrência de sua carreira. “Para quem fala que Marília Mendonça não tem músicas de amores que não dão certo, está aí”, disse.

A parceria e cumplicidade com a dupla de irmãs é de longa data e elas já se conheciam antes mesmo da fama. No começo da carreira, em 2016, as três lançaram o primeiro álbum colaborativo intitulado “Agora é Que São Elas”. Dois anos depois, gravaram a parte dois do mesmo projeto e, em 2020, criaram o “Patroas”, que pretendia viajar com shows em diversas partes do país. Era o “Festival das Patroas”.

Na sexta-feira, dia do acidente, as três estavam com duas das músicas mais tocadas do Brasil: “Esqueça-me se For Capaz” e “Todo Mundo Menos Você”.

Fonte: CNN Brasil

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