O lado pessoal e humano de um bispo que ficou na história da comunidade corumbaense

abril 26, 202110:05 am

O espanhol de alma corumbaense, dedicou-se por 6 décadas a Missão Salesiana, quase 50 anos de sacerdócio, sendo 14 anos à frente da Diocese de Santa Cruz de Corumbá, afirmou jamais duvidar da sua vocação. Fez sua Páscoa definitiva em 21 de Abril de 2021.

Complicações causadas pela covid-19 levaram deste plano terrestre Segismundo Martínez Alvarez no dia 21 de abril de 2021, aos 78 anos. O bispo emérito de Corumbá atuou à frente da diocese durante 14 anos, aposentando-se em 23 de março de 2019, após ter completado 75 anos de idade. Dom Martínez era um grande estudioso, formou-se em filosofia, teologia, pedagogia, economia, administração e contabilidade.

Antes de assumir a função de bispo em Corumbá, era um homem dos números. Atuou como ecônomo em diferentes lugares, uma espécie de administrador. Essa posição exigia muita seriedade e austeridade, duas características que podiam, talvez, esconder o lado tão humano e humildade que ele também carregava, mas aparentemente ficava escondido para quem não convivia com ele diariamente.

Ao se tornar bispo, em 2005, conseguiu demonstrar que não era somente um administrador reconhecido. Também tinha a sensibilidade para ser o coração e a mente de uma diocese. Ainda foi além, porque reconheceu e valorizou que sacerdotes e leigos precisavam dividir responsabilidades e carregar o crescimento da comunidade juntos.

Em uma de suas celebrações realizadas de forma mais privativa e que fora gravada, o espanhol nascido em Acebes del Páramo (distrito da cidade de Bustillo del Páramo) dá um relato muito particular sobre como havia construído sua trajetória. Seus exemplos podem servir para mostrar como uma caminhada da vida depende muito de dedicação e amor para trazer a felicidade. Ele também exemplificou com sua simplicidade a realidade de que todos erram, mas é preciso superação e fé para seguir em frente.

A seguir está todo esse relato pessoal de Dom Martínez, que serve também como uma homenagem a este homem que serviu e trabalhou por Corumbá.

“Estava pensando sobre como o Senhor me chamou, então ouça um pouco da minha história. Era 1955, o meu primo Santiago estava celebrando sua primeira missa como padre e nesse dia, eu era uma criança de 12 anos, estavam presentes meu irmão e outro primo que estavam no seminário. Estava presente também o diretor do seminário que os dois estavam. Esse diretor me viu e me perguntou se eu queria ser padre. Respondi que não e ficou por isso. Pouco tempo depois, minha mãe chegou e ela me disse que um colega meu ia para o seminário. Não falei nada, mas pensei: ‘se ele vai, por que não posso ir?’

A partir daí surgiu todo o meu questionamento. Falei com minha mãe e minha irmã porque tinha outros dois irmãos, um que já estava no seminário e uma irmã que estava com freiras. Elas falaram que era para falar com o meu pai. Imaginem, meu pai era um agricultor, onde o trabalho era manual e precisava de ajuda. E ele me disse ‘olha, eu não quero ser obstáculo para que meus filhos realizem a sua vocação. Então escrevi para aquele diretor (de seminário) e ele me disse que das 150 vagas, todas estavam ocupadas.

(Mas) Em 1956 eu já estava no seminário. Aquele meu irmão foi ordenado padre, meu primo foi ordenado padre, foram quatro primos salesianos sacerdotes. Uma benção que atribuímos a orações de minha avó. Nunca mais tive dúvidas. Nesse período teve alguns acidentes, vamos dizer. Se meu irmão estava no seminário e eu também, meus pais tinham que pagar. Eles eram pobres e minha mãe escreveu uma carta para mim falando ‘meu filho, você vai ter que voltar para casa. Nós não temos mais como manter você no seminário’. Eu mostrei essa carta para o diretor, Felipe González, e ele me disse: ‘esquece’. Sempre tive um carinho por ele, que faleceu após um acidente, foi atropelado.

Mais tarde, outra vocação missionária nova. Eu mandei uma carta para o inspetor, que foi (também) para o reitor-mor colocando-me à disposição que eu ia para qualquer lugar. Em 1964 chegou a resposta do reitor me perguntando se eu gostava de voar. Ele me disse que eu ia para Mato Grosso. Essa era uma época da regime militar (no Brasil) e tive que esperar quase um ano para conseguir o visto de permanência. Foram 13 dias de viagem de barco (entre Europa e Brasil). Fui para Cuiabá, fiquei três anos e meio, fui para o Paraguai e voltei para a Itália.

Nunca me arrependi de ter escolhido minha missão salesiana e episcopal. Eu tenho dois momentos de alegria na minha vida sacerdotal. Primeiro, quando se celebra a eucaristia. Outro também quando eu não somente posso usufruir da misericórdia de Deus da confição, mas quando posso falar para Ele arrependido do pecado. E Ele fala: ‘Meu filho vá em paz, porque o Senhor te perdoou’.

Nem sempre a gente tem perfeição. São Pedro não foi (perfeito). Eu também tenho sido pecador, muitas vezes infiel. Mas insisto, nunca duvidei da minha vocação. Lutei para me manter fiel. Por isso quero agradecer ao Senhor pelo que ele me acompanhou. Agradecer à Nossa Senhora Mãe dos Sacerdotes, Mãe dos Salesianos. Agradecer à Comunidade Salesiana, que mais uma vez me acompanhou, e não só quando eu vim da Espanha, mas agora, quando me acolheu aqui nessa comunidade. Enquanto eu puder e o Senhor me conceder força, estou a serviço da igreja e da comunidade. Amém!”

Sobre sua trajetória, Dom Martínez entrou na Sociedade Salesiana de Dom Bosco em 1961 e foi ordenado sacerdote em 1972. Entre 2000 e 2005 foi vigário paroquial de Nossa Senhora da Guia, na arquidiocese de Cuiabá (MT). Voltou definitivamente para Corumbá em 2005, ao assumir a diocese. Até chegar a bispo, sua jornada envolveu a coordenação de pastoral, professor e ecônomo em Araçatuba (SP); diretor e professor em Alto do Araguaia (MT); econômo da missão Salesiana de Mato Grosso e pró-reitor de administração na Universidade Católica Dom Bosco. Também foi diretor do colégio Santa Teresa de Corumbá.

Segismundo Martínez escreveu, de forma dedicada e delicada, uma história de realizações entre 23 de fevereiro de 1943 a 21 de abril de 2021. Foi sepultado em Corumbá, em 22 de abril de 2021.

Fonte: Correio De Corumbá

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