População de jacarés está sob ameaça com estiagem no Pantanal

outubro 18, 202110:23 am

Com um dos níveis mais baixos em 121 anos, a estiagem no rio Paraguai está causando efeitos diretos na população de jacarés na região de Corumbá. A espécie já foi muito ameaçada no Pantanal durante a guerra travada contra os coureiros, na década de 1980. Nesse período, o principal problema era a caça indiscriminada pelo couro da espécie Caiman crocodilus yacare. Agora no século XXI, a maior preocupação é a redução das áreas alagáveis.

Estudo da Embrapa Pantanal aponta que a escassez hídrica na bacia do Paraguai, que ocorre desde 2020 e pode durar até 2024, está diminuindo drasticamente os ambientes usados por jacarés. Com isso, eles acabam ficando mais suscetíveis a ataques de seres humanos e também encontram dificuldade para a reprodução, além de serem atingidos pelas queimadas.

“O Pantanal abriga uma população vigorosa em anos de oferta de ambientes, em torno de 3 milhões de indivíduos, dados da Embrapa. Mas nesses últimos 3 anos a seca severa tem causado mortes de indivíduos. A estiagem longa traz risco direto com relação à quantidade de animais porque os indivíduos não têm tempo de se recuperar da seca e assim não reproduzem. Não tem alimento e assim a mortalidade de adultos e jovens é alta em todo Pantanal. Outro fator gritante são os incêndios florestais que matam os indivíduos e destroem suas matas”, alerta a pesquisadora Zilca Campos.

Zilca está na Embrapa desde 1989 e tem graduação em Engenharia Florestal e doutorado em Ecologia, na área de conservação e manejo da vida silvestre. Ela atua principalmente com temas ligados ao jacaré-do-pantanal, jacarés brasileiros e reprodução e movimento.

O bioma do Pantanal está enfrentando uma das cinco piores secas já registradas. A pior registrada em um século ocorreu entre 1962 e 1973. Nesse período, em 1964, o nível da régua em Ladário, na Marinha do Brasil, alcançou -63 centímetros. Porém, neste sábado (16), o nível do rio alcançou -60 centímetros. A tendência é que essa seca perdure até o final do ano. A previsão de retomada de chuvas consistentes e capazes de elevar o nível do rio é para o começo de 2022.

Esse cenário preocupante já vem sendo relatado por órgãos de monitoramento. O Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM) emitiu alerta agora em outubro de 2021 sobre a pior seca dos últimos 121 anos. O tema foi tratado na 5ª reunião da Sala de Crise do Pantanal, onde há integrantes do Serviço Geológico do Brasil, Agência nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Grupo de Previsão de Tempo no Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN).

Os prognósticos para o clima e o bioma já sinalizam alerta para que haja trabalho preventivo de preservação do jacaré que habita o Pantanal. Ações sendo realizadas ainda neste ano podem evitar que a população desse animal sofre redução crítica. Entre as medidas sugeridas é que não haja coleta de ovos.

“As mortalidades são no nível de fazendas. Iremos avaliar ainda se as populações apresentaram um declínio nesses 3 últimos anos em todo Pantanal. A Embrapa recomenda que não interfira nas populações dos jacarés, que não coletem ovos e nem filhotes. A espécie vai resistir a esse período de seca extrema desde que atuamos nas causas dessa seca”, pontua a pesquisadora da Embrapa Pantanal.

Quando houve seca severa de 11 anos, no século passado, os jacarés sofreram impacto direto e redução do número das espécies. A situação foi controlada a partir da cheia que começou a ser registrada a partir de 1974. A especialista sugere que a atuação do homem é ainda uma preocupação para causar risco de extinção. Quando não há a caça direta ao jacarés, outras atividades que influenciam no clima causam um efeito em cascata que atinge diferentes espécies de animais.

“As ações antrópicas têm acelerado e intensificado essa diminuição da precipitação, bem como as mudanças climáticas globais. Precisamos atuar nas causas da seca no Pantanal, a fim de evitar que a seca continue por mais tempo”, reconhece Zilca Campos.

Em 7 de janeiro de 2020, pesquisa publicada pela Indiana State University na revista científica Plos One apontava para um futuro de precipitações extremas e dinâmica de seca alteradas por conta de mudanças na temperatura do oceano. Um impacto direto para o Pantanal. O artigo, inclusive, é intitulado “Quo vadis Pantanal?”, que em tradução livre significa “Para onde vai o Pantanal?”.

“O presente estudo prevê secas severas para o ecossistema do Pantanal e essas secas serão causadas pelo aquecimento da temperatura de superfície dos oceanos que ocorre no Hemisfério Norte (Oceano Atlântico no norte e no norte Pacífico). Essas mudanças climáticas irão resultar em mudanças na dinâmica das cheias, drasticamente afetando todo o funcionamento do Pantanal, com consequências para a diversidade da vida animal e sua distribuição, bem como a sustentabilidade da atividade humana”, apontou algumas conclusões do artigo.

O Correio de Corumbá retratou que alguns jacarés foram encontrados mortos no Porto Geral e também nas proximidades da ponte de captação de água neste mês de outubro. Um dos animais tinha sido morto por tiro na cabeça e seu corpo ficou na prainha do Porto Geral. Outro estava sem o rabo, que é caracterizado como a melhor parte do animal para alimentação.

Fonte: Correio De Corumbá

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