Prédio do Cine Anache passa por obras que devem revolucionar o setor de entretenimento da cidade
fevereiro 15, 20219:27 amEntre outubro de 1964 a 2002, localizado na Rua Delamare, 1207, o Cine Anache fez história e ajudou a criar histórias em Corumbá. O melhor cinema da cidade, com sistema de som estéreo, mais de 900 lugares, sistema de ar condicionado que refrigerava no chão e no teto e poltronas almofadadas reproduziu nas telas filmes icônicos e como um dos principais pontos de encontro da cidade contribui para se tornar uma referência aos corumbaenses.
O seu fechamento deixou saudade para milhares de pessoas, talvez não só porque era o grande entretenimento do município, mas pelo fato de ter sido um espaço que ajudou a formar famílias, revelar amores, maravilhar crianças com imagens singulares que o cinema ajuda a produzir.
Toda essa época ficou no passado e na memória. O cinema foi fechado e por quase duas décadas permaneceu abandonado. Este foi o fim da Cinematografia Farjalla Anache Limitada. O prédio do Edifício Farjalla Anache acompanhou seu principal “inquilino”. A dezena de proprietários deixou a estrutura até ser completamente fechada.
“Em 2001, um processo de inventário da família Anache foi o que movimentou a destinação do prédio e da estrutura do cinema. O processo deu início por conta da morte de Laurita Anache, que ocorreu em 16 de abril de 2001. Quem deu entrada foi Fause Anache, irmão de Laurita, em petição datada de 8 de maio de 2001. Mas houve altos e baixos nesse decurso. Um deles foi que Fause faleceu em 5 de outubro de 2008 e quem passou a tocar a ação foi Armando Anache, outro irmão de ambos. Porém, não houve conclusão da ação por conta de cobranças que existiam sobre o patrimônio e originadas em outros processos. Só em 2018 a Justiça Estadual conseguiu dar um rumo nessa questão. Naquele ano, a Real Brasil Consultoria Ltda, de Uberaba (MG), foi definida judicialmente para conduzir o inventário. Na lista de inventariantes atualmente constam os nomes de Armando Anache e Luiz Fabrício Silva de Arruda, que era companheiro de Fause Anache.
O processo passou a andar até chegar à definição do leilão, ocorrido em 29 de maio de 2020, com a especificação de que o prédio tem valor histórico para Corumbá. Além disso, a Justiça Estadual incluiu a OAB-Corumbá, a Prefeitura, a Câmara, o Estado e o Banco do Brasil entre os interessados na conclusão da ação. O processo caminhou para que houvesse o pagamento de tributos públicos.
No dia do certame, a Justiça aguardava propostas e o valor mínimo de lance era de R$ 494.628.201. A área leiloada, que compreendeu o cinema, a sobre loja e quatro salas, estava avaliada em R$ 549.586,86. Todo o prédio tem valor estimado de R$ 2.170.000,00. Foi então que o corumbaense Sami Lotfe, que ouviu sobre o leilão a partir de seu contador, decidiu fazer um lance para “ver” o que aconteceria. R$ 600 mil foi o lance virtual. Minutos depois, sem nenhum outro concorrente, o leiloeiro bateu o martelo. Foram adquiridos 1,2 mil metros quadrados.
“Eu recebi a notícia do meu contador que o prédio estava indo a leilão e eu pensei comigo: ‘um monumento como esse, no Centro da cidade’. Eu decidi arriscar um lance. Eu falo que entrei de gaiato. E aí não sei se felizmente ou infelizmente (risos) saiu para mim. Eu fiquei assustado no começo. E agora estou aqui. Eu vim muitas vezes no cinema aqui e a minha família já foi dona do cinema concorrente, com o Cine Tupi (que ficava embaixo e aos fundos do Edifício Iosa, onde hoje há uma loja de colchões) e o Cine Santa Cruz (vendido para o Bradesco). Depois, tivemos uma época que também nos associamos ao Cine Anache, era uma época que o nosso cinema já não estava tão bem”, recorda Sami Lotfe. Ele concedeu entrevista no próprio prédio do antigo Cine Anache.
No primeiro momento, depois do espaço ter sido arrematado, foram necessários quatro meses de obras basicamente para a limpeza e manutenção das partes hidráulica e elétrica, além do conserto no telhado do galpão do antigo cinema. Foram retirados 36 caminhões com entulho do local. Na parte de documentação, o novo proprietário ainda está envolvido em obter os registros.
“Eu tenho a preocupação de só recuperar o que já tem, por agora. Queremos recuperar portas, portais, janelas. Por sinal, é um edifício muito bem construído. Recuperamos o sistema de esgoto, a área hidráulica e elétrica, que estavam condenadas pela Prefeitura. Tudo isso já foi corrigido”, conta Sami, que com 79 anos assumiu, conforme ele mesmo disse, um dos maiores desafios da vida dele para renovar o espaço do antigo cinema.
“Eu tenho quatro filhos, três moram em Corumbá e uma em Campo Grande. Eu quero deixar um legado para eles. Quando souberam que eu arrematei aqui, ficaram com cara de interrogação. Me perguntaram o que eu ia fazer com esse abacaxi (risos). Hoje achamos que transformar esse espaço em um centro comercial é uma opção para transformar a cidade. Cinema sabemos que não será possível montar porque não é economicamente viável. E quem tiver sugestão, pode dar para gente que vamos avaliar sobre a destinação desse espaço. Essa questão da pandemia vai acabar, com certeza vai acabar, e a gente pensa sobre isso. Não temos um prazo definido para terminar, mas vamos fazer”, prevê o fazendeiro e agora empresário.
“Não quero ficar sentado em uma cadeira de balanço esperando o tempo final, então agora é hora de fazer alguma coisa”, revela.
Para realizar o trabalho de manutenção e limpeza do prédio foi contratada uma equipe chefiada pelo mestre de obras e pastor Sandro de Carvalho, 48 anos, que mora próximo ao prédio em reforma. Com ele, somaram-se mais 10 pessoas na primeira etapa de limpeza, que durou 45 dias. Atualmente, são seis pessoas trabalhando na limpeza e reformulação da área de esgoto. “Nunca tinha pegado uma obra desse tamanho. É o desafio da minha vida”, reconhece Sandro, que vem recendo o apoio de Luiz, Júnior, Paulo, Rian e Danilo na obra e ainda divide o tempo recebendo visitas de pessoas querendo ver o antigo cinema. “Desde que começamos aqui, umas 100 pessoas já bateram na porta. Teve gente que chorou, chorou. Contou que passou um filme na cabeça ao cruzar a porta. Esse foi um espaço muito valioso para milhares de famílias corumbaenses. A gente trabalha aqui pensando nisso.”
“Eu confio no Sandro, ele é meu braço, minha perna. Quem me indicou ele para trabalhar junto foi meu serralheiro, o Osmair. A gente acertou a obra de limpeza, mas agora eu não deixo mais ele largar dessa obra de jeito nenhum”, ressalta Sami.
A arquiteta Silvia Lotfe, filha de Sami, é quem vai desenhar o projeto de remodelação do espaço do antigo cinema. Há também um engenheiro diretamente trabalhando no local, que é irmão de Sami. “Do jeito que o espaço está, entendo que muita gente não se anima. Por isso estamos fazendo tudo que for possível para tornar esse negócio viável. Logo vai haver parceiros e iremos transformar esse local”, garante o comprador, que promete ter o “abacaxi” do antigo Cine Anache descascado o quanto antes.
Fonte: Correio De Corumbá