Termômetro dos efeitos climáticos, seca no Pantanal ainda deve durar até 2024
agosto 23, 20218:58 amO Rio Paraguai segue caminho para ter seu nível reduzido mês a mês enquanto não houver chuva capaz de mudar o cenário. O Comando do 6º Distrito Naval de Ladário realiza diariamente medições e os dados mais recentes, de 21 de agosto, é que o nível está em 0,44 centímetros em Ladário, o que representa em 1,58 m abaixo do nível da régua. A estiagem ainda não tem previsão para acabar e estudos sinalizam que ela vai durar até 2024.
Apesar da seca que é registrada desde 2020, sem que houvesse uma grande cheia no período de chuvas, as condições da bacia não estão atravessando ainda o período mais severo. Contudo, com o prolongamento da estiagem essa condição de haver a pior seca dos últimos 100 anos ainda não pode ser descartada. “Essa é uma das secas mais severas e houve uma estiagem mais severa e longa, entre 1962 e 1973”, específica o pesquisador Carlos Padovani, do Laboratório de Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto da Embrapa Pantanal (Geohidro-Pantanal).
Para que no momento atual a bacia voltasse a ter volume maior de água, seria preciso mais de 860 mm de chuva, um recorde histórico. Os dados foram obtidos a partir de estudo do Instituto de Física da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em Campo Grande. Essa quantidade corresponde a 50% a mais da média de chuva registrada entre janeiro e julho deste ano. As condições climáticas não indicam que isso vai ocorrer até o final de 2021.
O Geohidro-Pantanal produz regularmente informações hidrográficas da bacia do alto Paraguai-Pantanal e o grupo aponta que a tendência do nível do rio para 3 de setembro é reduzir ainda mais. Em Forte Coimbra, esse nível vai ficar mais baixo também. Um cenário que pode, por exemplo, inviabilizar o transporte fluvial.
A explicação para que haja essa seca forte está ligada a diferentes fatores climáticos que ocorrem no Brasil e no mundo. É fato que uma argumentação precisa para justificar essa situação também passa por revisão científica, mas já existe uma conceituação formada. O pesquisador Carlos Padovani detalha que é preciso buscar estudos em mais de uma fonte para identificar os fatores que estão causando essa seca.
“As causas que vem sendo comentadas pelo meio científico envolvem relação com as alterações antrópicas (ação do homem) na Amazônia, embora essa relações estejam sendo revistas por alguns cientistas. Variações climáticas naturais são também uma possibilidade, visto que, conforme mencionado, já ocorreu estiagem ainda mais severa e longa de 1962 até 1973, além de períodos mais curtos no histórico da região. As mudanças climáticas globais e consequentemente a ocorrência mais frequente de eventos climáticos extremos também são apontadas como uma das causas”, esclarece.
Outro ponto que se analisa diante da atual seca é quando ela vai terminar. O que se estipula sobre essa condição é que a estiagem veio para ficar por mais alguns anos. A Organização Mundial de Meteorologia (OMM) acompanha, com alerta, a situação do planeta e com base em dados realiza estudos para tentar antecipar condições climáticas e gerar alertas para os países que podem ser atingidos por mudanças mais severas. Em 2019 já existia o indicativo que a seca seria mais intensa do que anos anteriores. Ano passado, os estudos avançaram e a conclusão que se tem atualmente é que a estiagem deve ficar até 2024.
A OMM publicou em seu site que diferentes partes da região tropical do planeta vão passar por secas mais severas e, com isso, o Pantanal foi incluído nesse trabalho científico. A Embrapa Pantanal acompanhou a publicação desse material.
“A Embrapa Pantanal vem trabalhando em um sistema de alerta para comunicar sobre eventos extremos de inundações e estiagens no Pantanal e bacia hidrográfica, em parceria com outras instituições como a UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul) e INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Desde de 2013 comunicamos a situação hidrometeorológica da bacia a partir de uma página no facebook chamada Geohidro-Pantanal”, detalha Carlos Padovani, pesquisador que faz parte do Geohidro e monitora as condições da bacia.
Efeitos da seca
Com a redução do nível do Rio Paraguai, uma sequência de fatos são desencadeados e com efeito direto em Corumbá e na sua economia. A começar pela utilização da hidrovia. O transporte de minério de ferro está mantido ainda neste mês de agosto, mas deverá passar por revisão em setembro. Mesmo que as embarcações continuem saindo, a quantidade de carga precisou ser reduzida para permitir que as “chatas” possam passar por locais onde estão sendo formados os bancos de areia.
Quando a hidrovia fica menos favorável para utilização, o meio rodoviário transforma-se em principal recurso de escoamento dessa produção de minério. Só a Vale, neste segundo trimestre de 2021, extraiu 860 mil toneladas. A Vetria tem volume médio de 30 mil toneladas por mês. Parte dessa carga acaba saindo em centenas de caminhões que mesmo com pesagem controlada exigem muito do solo da BR-262 em trecho que corta o Pantanal.
O volume de peixes do rio também é afetado diretamente. “A produção de peixes tende a diminuir em anos de estiagem, pois os peixes perdem o acesso às áreas de várzea e outras áreas inundáveis, próximas ao canal principal, que propiciam alimento e abrigo aos alevinos e juvenis das espécies migradoras, que são aquelas de maior interesse econômico”, detalha o pesquisador da Embrapa Pantanal, Carlos Padovani.
Quem pesca diariamente e trabalha no setor em Corumbá percebe essa situação no dia a dia. “Em 1970, esse rio era assim, não era cheio. Depois veio a super cheia e em 1979 houve uma chuva muito, muito grande, que arrebentou mesmo. As pessoas acostumaram-se a ver o rio cheio. Só que naquela época, Corumbá tinha 30 mil habitantes e agora, são mais de 110 mil. É turista, é pescador amador, é pescador profissional, é pescador ribeirinho. O peixe está sumindo. Com essa diminuição das águas, o peixe fica canalizado e se torna uma presa fácil”, comenta Vanderlei Moreira, pescador desde a década de 1970 e morador do Aeroporto.
Outro efeito grave da seca é a queimada. Desde julho está proibido o incêndio no Estado, mesmo para quem tem licença ambiental. Mesmo assim, os focos continuam sendo registrados. Nesta sexta-feira (20), o fogo atingiu a área do Pantanal que fica em frente ao Porto Geral e quase atingiu uma pousada. O volume de fumaça chegou a Corumbá e a fuligem continuou sendo registrada na cidade mesmo um dia depois, no sábado (21).
Fonte: Correio De Corumbá